A primeira vez a gente nunca esquece [2]

Queridos,

obrigada pelo carinho. Aparentemente confusões no Oriente Médio são melhores do que aniversário no Facebook pra se sentir amada. 😉

Não vou fazer análise nem repetir as notícias, os jornais tão aí e meus amigos jornalistas ganham (mal) pra isso. Quero contar da minha primeira vez, a primeira vez que escutei a sirene tocar não pela chegada do Shabbat e sim por segurança/ameaça.

Eu estava em casa com a Osnat, uma amiga, me preparando pra sair pra trabalhar quando ouvimos a sirene. Por um momento, como todos em Jerusalem, pensamos “Ué, a sirene do Shabbat? Mas não tocou agora?”. Rapidamente corremos pro meu quarto, que é o abrigo da casa, fechamos a porta e esperamos.

Daí eu ouço meu telefone tocar e me dou conta de que trouxe o cinzeiro pra dentro do quarto ao invés do telefone! Meu coração batia muito rápido, e a aflição de não poder atender o telefone e dizer pros amigos que eu estava bem só piorou. Esperamos os 10 minutos, não ouvimos o boom, e saímos. Daí mil telefonemas pra avisar que tava bem, que não tinha acontecido nada.

[E no exato momento que escrevo isso acaba de ter sirene em Tel Aviv. A rotina é a mesma: ligar pra todos os amigos em Tel Aviv saber se estão bem. Segundo a Tamara daqui a pouco a gente se acostuma e para de ligar toda hora.]

Ainda atordoada fui pro Hostel. Cheguei lá vida “normal”. Ninguém em pânico. Já havíamos recebido um email dos donos, de como agir, o que explicar pros hóspedes, etc.

Abri o bar e tomei um chaser de whisky às 5 da tarde! A noite foi engraçada. Tinha um que de euforia no ar, todos bebendo muito. Meu chefe mandou distribuir chaserim de graça pra todo mundo. Música alta e animada. Vários amigos estavam lá, incluindo Tio Sergio e minha prima Beatriz que estão aqui de visita. Foi uma noite ótima, com o direito à várias piadas de humor negro. E voltamos todos bêbados pra casa.

Eu sei, é esquisito. Já tinha ouvido isso de amigos aqui, tempos de guerra/conflito são muito  excitantes. Existe uma espécie de botão do foda-se que você liga. Tipo, eu não posso fazer nada, se cair em mim caiu. Então vamos nos divertir. Os que passaram por isso pela primeira vez, como eu, faziam brindes toda hora “À primeira sirene!”

Agora que eu já perdi a virgindade estou calma. Espero que não tenha de novo, claro. De qualquer forma eu e Osnat colocamos uma garrafa de whisky dentro do quarto. Água já tem desde que peguei a máscara anti-gás por uma possível guerra com Irã. To ligada nas notícias, no twitter, e onde mais puder. No mais é vida “normal” aqui em Jerusalém. Aula, trabalho, nada parou. Como todos os Olim Hadashim falaram, a gente não pode dizer que não sabia da possibilidade. Foi esse o lugar que a gente escolheu morar.

 

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Política, sexo, futebol e religião!

E aí Chaverim,
votaram direitinho?

Me abstive de fazer comentários no FB sobre as eleições, mas acompanhei daqui. E que pena que o Leo não foi eleito.

Agora tava lendo os posts pós, gente comemorando, gente chorando, e claro gente brigando. Tá rolando inclusive uma polêmica em torno do PSOL e relação com a comunidade judaica por conta de um candidato à vereador babaca que queimou a bandeira de Israel.

Os comentários do tipo “parabéns você que votou no Paes é um idiota e não pode reclamar de nada” me fazem rir. Parece até torcedor do Botafogo. 😉 Até porque daqui a um tempo tá todo mundo reunido no Baixo Gávea tomando chope.

Essa semana saí com umas amigas, girls night out, e uma delas estava contando de um date que teve. Tava tudo ótimo, o cara era gato, foram tomar drinks, curtiam os mesmos filmes-livros-discos até que entraram na política. Ele era de direita, eleitor do Likud, e ela não (porque eu não tenho amigas eleitoras do Likud, mulheres amadurecem mais cedo!), ela é Meretz. E aí gente, fudeu, brochou total.

Política e religião aqui é um negócio muito sério. Oh Really? Really, não só pelas coisas que vocês estão cansados de saber, mas do jeito que afeta a sua vida pessoal.

Coisa mais frustante é ver um cara gatinho no bar e de repente se dar conta de que ele tá usando kipá. Pra mim não rola. Eu não sou religiosa, não acredito em deus, não guardo shabbat nem kashrut. O cara usar kipá (e tem zilhões de tipos)  não significa somente marcar uma identidade judaica, mas uma linha de judaísmo que ele segue de verdade. O bom é religião é mais fácil de ver.

Política, por outro lado, é foda, porque não tem nenhuma forma de marcar na vida secular (a não ser que você seja um fanático e queira andar com uma camisa do Yisrael Beitenu ou Hadash pra cima e pra baixo). Então você tá num bar, na universidade, conhecendo gente, fazendo novos amigos e de repente vem a barreira.

Não é que eu não tenha amigos de direita, tenho, pessoas queridas, que é possível conversar sobre política (algumas eu simplesmente evito). A mesma coisa com a esquerda anti-sionista – sim, eu já disse, eu sou sionista – que de vez em quando radicaliza demais pro meu gosto (e ouvidos). Mas mesmo esses amigos, quando eu e Diaa fazemos jantares em casa, a gente tem que pensar como vão ser as interações das pessoas. Tipo, não vamos chamar aquele vascaíno porque senão ele vai cair na porrada com o flamenguista e vai estragar a festa.

É uma realidade completamente diferente da que eu vivi no Brasil. Não conheço nenhum caso de amiga ou amigo que tenha deixado de sair com alguém por ser PeTista ou PSDBista (também não conheço nenhum PFeLista de carteirinha).

Então, você que votou no Freixo, espera uma ou duas semana e vá tomar um chope com teu amigo que votou no Paes.

Beijos e saudades!

 

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A Guerra

Desde o último fim de semana os rumores sobre um possível ataque de Israel ao Irã aumentaram. Tá aqui a matéria em portugues que saiu n’O Globo.

Na página do Facebook dos Olim do Brasil os mais velhos estão dando recomendações do que fazer: buscar máscaras anti-gás que o governo está distribuindo, procurar saber onde é o abrigo mais próximo de casa, estocar água, etc, etc.

Essa semana eu fui com dois amigos brasileiros buscar as máscaras. Uma fila gigante, esperamos uma hora e meia até chegar nossa vez. Foi uma experiência inédita e bizarra. Na fila várias pessoas com máscaras antigas, pra torcar por modelos mais modernos, como se fosse uma coisa normal. Bom, é quase-normal. Ouvindo os relatos que quem viveu outras guerras, especialmente 1991 quando o Iraque atacou Tel Aviv, você consegue achar quase-normal. Ou outros momentos como esse, em que a possibilidade de guerra pairava no ar e ninguém sabia ao certo o que ia acontecer.

Eu não tenho a menor idéia se vai ter guerra ou não. Todo mundo tem uma opinião. Tem gente que acha que o Bibi & Barak não seriam tão malucos, que o custo econômico e diplomático seria muito alto. Tem gente que acha que eles são loucos, e estão cagando pros custos. Tem gente inclusive que é a favor do ataque, já que o Governo do Irã parece tão são quanto o de Israel.

Desde o início do ano também um movimento chamado Israel Loves Ira começou a espalhar essa mensagens na internet. No fim de semana passado aconteceu um pequeno protesto em Tel Aviv, e hoje eu li no jornal sobre um abaixo-assinado destinado aos pilotos, pedindo para que eles se recusem a atacar Teerã mesmo se receberem ordens.

Eu confesso que ainda estou calma. Primeiro dizem que Jerusalém é o lugar mais seguro, por conta da Mesquita. Que o Irã não arriscaria atacar a cidade e destruir o 3 local mais importante pro Islã por acidente. De qualquer forma peguei minha máscara, meu quarto é o abrigo da casa e vou comprar água, afinal melhor prevenir do que remediar.

Pra mim é uma situação extremamente bizarra. Não faço idéia de como vou reagir se realmente existir uma guerra. Não, eu não quero essa experiência por nada nesse mundo, mas também não vou entrar em pânico e comprar uma passagem pro Brasil agora pra esperar. Eu tenho uma vida aqui, trabalho, mestrado, contas. Não dá pra largar tudo e sair correndo. E é isso que eu vejo as pessoas à minha volta fazendo, levando a vida.

Se alguém quiser uma outra opinião o Jonja também escreveu sobre a possibilidade de Guerra no Blog dele.

 

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Que o meu lar é um botequim…

Chaverim,

muuuuuito tempo sem escrever. Estive em Madrid pra tentar aprender que Español é realmente um outro idioma, e agora, de volta à Jerusa, to trabalhando feito um louca pra fazer dinheiro.

Mas já que to em falta resolvi falar da melhor night que tem, a vida noturna da cidade santa. Um mini guia se um de vocês quiser me visitar.

Shuk e Adjacências

O shuk (mercado) Machané Yehuda anda bombando – no sentido carioca, não no israelense. De dia é uma espécie de Cobal (muuuuuuito melhor), onde compra-se frutas, legumes, verduras, carne, etc. Mas de noite a coisa muda de figura, com bares lotados, shows, djs, muita cerveja e arak.

Casino de Paris

Bom, esse é o bar que eu trabalho, então obviamente é ótimo. Tem uma seleção de cervejas artesanais locais foda. Super recomendo. Além disso tem uma carta de drinks da casa, como Ytzhak Rabin (Johny Red, Soda e folhas de Oliveira), Shuk HaGruzini (chacha, sauer e hortelã).

Pra comer tem o Sanduíche Decadente (uma montanha de Roastbeef e Corned-beef, maionese, alface e tomate) ou o Prato de Peixe Defumado (atum, salmão, arenque mais um monte de peixe que eu não sei o nome, acompanhado de um pesto de coentro e pão).

Além disso o Casino é o único bar que tem cardápio em duas línguas, e eu não to falando de Hebraico-Inglês (tem também) mas Hebraico-Árabe. Respeito.

5 de Maio

É o meu botequim no Shuk. Não tem nenhuma relação com México, o nome é porque os donos vivem em uma Comuna, é um negócio coletivo, todos são sócios e todos trabalham, e a Comunda foi fundada em 5 de maio. Todos as segundas e quintas rola DJ e dá pra dançar.

Tem uma boa seleção de cervejas. Eu sempre acabo tomando Gosser por uma questão de custo-benefício. E vários chasers de Arak que os bartenders oferecem.

Yehudale

Saindo do shuk, tem o Yehudale, dos mesmos donos do Machané Yehuda, um dos restaurantes fodas da cidade dizem os amigos. É um restaurante/bar de tapas, com um balcão giga e a cozinha dentro. Você vê a comida sendo feita. As porções são tapas, mas é uma delícia pra provar várias coisinhas diferentes. Não é casher, então lá eu como camarão, bacon, mmmm….

Slow Moshe

Descendo pra dentro do meu bairro, Nachlaot, tem o Slow Moshe. É uma espécie de pé sujo desleixado. Tem uma ou duas opções de cerveja, e uns biscoitinhos furrecas, mas tem um clima maneiro. Tipo, bar de bairro.

Mekaz haYir (Centro da cidade)

Barood

Meu restaurante favorito. A comida é muito boa e o lugar é um charme, parece um bistrozinho. A cozinha é internacional com toque mizrahi (oriente, mas no sentido de oriente médio). Tem um purê de batata de comer chorando, e todo mundo que vem me visitar eu levo lá. Ah, também não é casher, então rola um ossobuco de porco delicioso. E o peixe do dia também! Ah, e fica aberto durante o shabat, coisa que os perto do Shuk não podem fazer.

Adom

Do lado do Barood, meio carinho e hypado (ainda se fala hype?), mas com bons drinks e um ravioli de queijo de cabra divino. Aberto no shabat, não casher, divertido.

Pinkas Hakatan

Em frente ao Adom, um bar bacana, às vezes tem DJ e dá pra dançar. Aberto no Shabat.

Toy Bar

Night playboy dos infernos, mas se você está bêbado com um grupo de amigos e quiser ouvir todas as músicas chicletes-pop do momento pode ser divertido. Juro.

Uganda

Do lado da night play tem o Uganda, um bar bem bacana, reduto da esquerda, que vende discos e rola DJ. Como não pode fumar lá dentro no final das contas fica todo mundo sentado na rua. A música é sempre boa.

Sira

Meu inferninho preferido, onde eu estou toda sexta. É realmente um inferninho underground, me lembra a Matriz. A música é aleatória. Quer dizer, tem programação, mas eu nunca lembro de checar antes de ir, então às vezes eu chego e tá rolando rock, groove, funk e sei lá mais o que. Já tenho um DJ preferido que me lembra muito o Lucio K, o Markey Funky. Quando ele toca é pra dançar até às 4, 5 da matina. O Sira tem vááárias cervejas de barril, incluindo Taybeh (Palestina) e Shapiro (Jerusalem) que são muito boas.

Bom, esses são os que eu mais vou/recomendo. Tem outros vários bares, e agora no verão estão abrindo novos o tempo todo. Quem vier me visitar ganha visita guiada na naiiiite de Jerusa.

Beijos e tim tim!

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Vergonha

Anteontem teve um protesto em Tel Aviv contra os imigrantes ilegais. A história é longa, vou tentar resumir: Israel vem recebendo muitos refugiados do Sudão e Eritréia, que vem em busca de melhores condições de vida. Eles acabam à margem da sociedade (porque o Estado não sabe ou não quer lidar com isso). Em algumas áreas no sul de Tel Aviv temos cenas – familiares pros olhos brazookas – de pedintes, moradores de rua. E houve um aumento da violência, incluindo aí dois casos de estupro.

Pois bem, houve um protesto contra os imigrantes. Até aí tudo bem, direito da direita de protestar. Só que o protesto foi violento. Atiraram pedras em pequenos comércios, atacaram africanos (ou seja, negros) na rua e um dos parlamentares que estava lá disse que eles são um câncer na sociedade Israelense.

É difícil de explicar o que eu senti. Raiva, muita raiva, e vergonha. Fiquei realmente pensando “o que eu vim fazer aqui?” “Pra que?” “Eu quero fazer parte de uma sociedade tão racista como essa?” Violência gratuita, um pogrom.*

Porque o racismo contra os árabes eu consigo entender – e vejam bem entender não é concordar – mas todo mundo tem uma história pessoal de perda, de trauma. Agora atacar refugiados na rua, pedir a morte de sudaneses, isso eu não consigo entender nunca. E, sim, ainda mais num país onde TODO mundo tem histórico familiar alguém que foi refugiado ou imigrante. Muita, muita, muita vergonha.

Essa raiva toda me tomou quando estava na universidade o dia todo, com zilhões de aulas diferentes. No meio de uma delas recebi uma notificação no Facebook, a Dafna me convidado pro Protesto contra o racismo, em frente a casa do Bibi. Me acalmei um pouco. Claro que iria sair da aula mais cedo para ir ao protesto. Comentei com uma amiga, ela igualmente revoltada, falou que iria comigo. Falamos com  professor e ele topou terminar a aula mais cedo para quem quisesse ir na manifestação.

Chegando lá éramos umas 200 pessoas. Não muito, mas uma manifestação flash mob, em Jerusalém, achei bacana. Esse grupo fascista de Tel Aviv, esses deputados da direita, não representam todo o país. Tem gente boa, tem gente que quer um estado presente e melhor, tem gente que quer mudança. Ufa. Claro, o gosto ruim não passou. Ainda estou com raiva, é difícil de digerir, mas não estou sozinha.

*Rolou uma discussão no Facebook sobre o uso da palavra Pogrom. Pra mim sim, foi um Pogrom, não tenho problemas em usar isso. Foi ataque violento à pessoas e seus estabelecimentos/pertences. E no convite do evento também estava escrito assim, só que em hebraico. 😉

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Independência

Eu não consegui celebrar a independência esse ano. Aliás, eu não consegui nem postar no Facebook Chag Yom Haatzmaut Sameach.

Yom Haatzmaut é o Dia da Independência. Sabe Brasil em dia de jogo de Copa do Mundo? É tipo isso, todas as casas enfeitadas com bandeiras de Israel, pessoas vestindo azul e branco, todo mundo muito feliz indo pra um zilhão de festas.

Mas eu não consegui. Não é porque eu não tenha amor pelo Estado de Israel, eu tenho. Mas alguma coisa nesse nacionalismo exagerado me incomoda, e pior, preocupa. De repente é como se tudo estivesse bem, como se não tivesse uma ameaça de guerra constante, como se todas as questões surgidas nos protestos do verão passado tivessem sido solucionadas, e principalmente, como se não existisse gente do nosso lado sem uma cidadania. Eu simplesmente não consegui embarcar na onda de alegria.

Eu tenho muito orgulho da minha Tehudat Zehut, de ler no passaporte “nacionalidade israelense”. De ver o quanto esse país é foda em diversos aspectos, da cultura à medicina, e que – ainda – é uma democracia. Mas eu também sei que tem muita coisa que pode e deve  melhorar, e um dos vários motivos da minha escolha em estar aqui é esse. Eu quero fazer parte.

O Jonja postou um texto lindo do Moacyr Scliar, que foi a coisa que genuinamente me emocionou nesse Yom Haatzmaut. Vale a pena a leitura, to colocando aqui pra vocês.

Ah, e Chag Yom Haatzmaut Sameach.

“Moacyr Scliar, Porto Alegre, RS

Na noite daquele 14 de maio de 1948 – amena, como costumam ser as noites de maio em Porto Alegre –, o garoto de 11 anos que eu então era subia a Rua João Telles, no bairro do Bom Fim, indo para casa. Era um trajeto que fazia regularmente; todas as noites descia até a Avenida Oswaldo Aranha, principal artéria daquele que era então um bairro essencialmente judaico, onde moravam as famílias dos emigrantes vindos em sua maioria da Europa Oriental. Na movimentada Oswaldo Aranha eu encontrava meus amigos e ficávamos conversando sobre livros e leituras, uma paixão comum entre os jovens judeus do bairro. Pelas 9 da noite, eu me despedia e subia a João Telles, que, àquela hora, costumava estar deserta e silenciosa: o pessoal do Bom Fim dormia cedo, porque de manhã deveria estar a postos nas pequenas lojas. Mas na noite de 14 de maio de 1948 foi diferente. Olhando pelas janelas, eu via pessoas celebrando, cantando e dançando – uma cena muito rara, sobretudo entre gente sofrida como era aquela. O que teria acontecido? Em casa, a radiante resposta: havia sido proclamado o Estado de Israel. Naquele tempo não havia transmissões de tevê ao vivo nem noticiário em tempo real; assim, o júbilo que percorreu as comunidades judaicas demorou um pouco a chegar a Porto Alegre. Mas, quando chegou, provocou a mesma explosão de alegria. Uma alegria que por milênios tinha sido reprimida. Por milênios a história do povo judeu foi uma história de perseguições, de discriminação, de humilhações e de extermínio, culminando com o Holocausto.

Na verdade aquele não era um momento de uma única alegria, era um momento em que se somavam múltiplas e diferentes alegrias. Ali tínhamos, em primeiro lugar, a alegria daqueles que já viviam no, agora, Estado de Israel. Depois, a alegria das comunidades judaicas, cuja causa podia ser sintetizada em uma palavra: dignidade. A criação do Estado de Israel restituía-nos a dignidade. Já não éramos mais um grupo humano amedrontado, quando não desesperado. Agora, podíamos levantar a cabeça e percorrer com orgulho nosso caminho. Fosse este caminho a estrada para um kibutz ou uma tranqüila rua no bairro judaico do Bom Fim.”

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Lembrar e não esquecer.

E de novo chegou Yom HaShoah.

Eu, burra, não prestei atenção na data e coloquei essa noite como disponível pra trabalhar no Hostel. No fim do dia já fui me sentindo muito triste, é difícil de explicar, mas tem algo no ar, uma melancolia, não sei.

Cheguei no trabalho, o bar do hostel sem música – ninguém ouve música em público e a rádio e a tv só passam coisas referentes ao Holocausto. Não tem clima, não dá pra dizer que é um dia como qualquer outro, não é.

Quase no fim do turno chega uma senhora de uns 70 e poucos anos, com olhos mega vermelhos de tanto chorar, pede uma taça de vinho e me conta que estava na cerimônia no Yad Vashem, o Museu do Holocausto.

Como se faz small talk, conversa de bar, num dia como esse? Ela olhava pro nada, tomava um gole, e eu via que ela ainda queria chorar, e muito. Foi foda.

Yom HaShoah é um feriado complicado pra mim. Como já disse aqui eu estive na Polônia em 2010, eu estudei Holocausto com o projeto Yad Vaed, e apesar de não saber de nenhum parente direto, me dói de uma forma inexplicável. É pessoal e não é.

Voltei pra casa péssima, triste, angustiada. Acordei às 5 da manhã com um pesadelo – que eu anotei, mas minhas anotações, agora que eu li, não fazem o menor sentido. Acordei de novo às 9h para ir ao mercado, menos para comprar comida e mais para ver e participar do momento que todo o país para, às 10h, por dois minutos. É impressionante. De repente toca a sirene e todo mundo para por dois minutos, não importa o que esteja fazendo, e presta um momento de silêncio em homenagem às vítimas.

Ontem, no Hostel, teve uma mini palestra pros turistas sobre a data. Meu amigo israelense, que fez apresentação, me contou que um dos hóspedes perguntou: “mas por que isso aconteceu?”

Eu me pergunto isso sempre, e especialmente num dia como hoje. Por que? Por que? Impossível achar uma resposta, impossível entender como a humanidade conseguiu construir uma indústria de morte dessa forma.

Agora vou pra aula, porque apesar de ser um dia especial, as coisas não param. Parar seria exatamente o contrário de honrar as vítimas. O nazismo não foi bem sucedido. Nós estamos aqui.

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